A violência na Palestina e em Israel: o trágico resultado de uma opressão brutal

Foto: Reprodução | UNRWA

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11 Outubro 2023

"Quando se mantêm dois milhões de pessoas em 360 quilômetros quadrados, sujeitando-as a um cerco implacável sem fim à vista, sem maneira de entrar ou sair, eventualmente, os despossuídos se revoltarão".

A opinião é de Seraj Assi, escritor palestino que vive nos Estados Unidos, autor The History and Politics of the Bedouin, em artigo publicado por Jacobin e reproduzido por Ctxt, 11-10-2023. 

Eis o artigo.

Nas primeiras horas da manhã de sábado, 7 de outubro, sob um dilúvio de foguetes disparados de Gaza, dezenas de militantes palestinos do grupo Hamas romperam o bloqueio da Faixa de Gaza, ultrapassaram as barreiras de segurança e invadiram cidades israelenses próximas, matando centenas de pessoas e mantendo outras como reféns em um ataque surpresa sem precedente.

Foi uma operação em larga escala, denominada pelo Hamas como "Tempestade de Al-Aqsa". Saleh al-Arouri, líder exilado do grupo, afirmou que a operação foi uma resposta "aos crimes da ocupação". O Hamas instou todos os palestinos a se juntarem à batalha: "Hoje o povo recupera sua revolução".

Israel declarou imediatamente o estado de guerra e, em retaliação, lançou ataques aéreos contra Gaza, matando mais de quatrocentos palestinos, a maioria civis. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, prometeu "se vingar com força" dos palestinos, chamou Gaza de "cidade do mal" e prometeu transformá-la em uma "cidade em ruínas". O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, já aprovou uma ampla convocação de reservistas.

As cenas trágicas que ocorrem em Gaza e Israel são um lembrete arrepiante de que a ocupação e a opressão têm um preço. Porque a verdade é que quando se mantêm dois milhões de pessoas em 360 quilômetros quadrados, submetendo-as a um cerco implacável sem fim à vista, sem a possibilidade de entrar ou sair, com drones e foguetes zumbindo sobre suas cabeças dia e noite, com vigilância e assédio constantes, com pouco controle sobre suas vidas diárias, em última instância, os despossuídos se rebelarão.

A violência não foi injustificada, como foi descrita pela grande imprensa. Ela estava sendo gestada e agravada em todos os cantos do país.

Na Cisjordânia, a cidade palestina de Jenin ainda não se recuperou da devastação causada por um recente ataque israelense, que a transformou em uma terra fantasma arrasada. A pequena cidade de Huwara ainda não se recuperou dos horrores mortais infligidos por colonos a seus habitantes.

Somente neste ano, as forças militares de Israel mataram mais de duzentos palestinos na Cisjordânia.

Para tornar a vida dos palestinos um inferno, multidões de colonos e grupos de extrema-direita, apoiados e encorajados pelo governo ultranacionalista de Israel, espalharam terror e caos entre os palestinos, incendiando aldeias e casas, linchando e matando civis impunemente.

Em Jerusalém, as forças de segurança israelenses permitiram que multidões de colonos agissem à vontade, despejando à força famílias palestinas e ocupando suas casas. Durante a festa judaica de Sucot, colonos invadiram o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, realizando visitas provocadoras, assediando e espancando os fiéis e cuspindo nos cristãos.

Os palestinos de Gaza têm sofrido sob o cerco. Enfrentando uma estreita faixa de terra conhecida como a maior prisão a céu aberto do mundo, os habitantes de Gaza estão sob um bloqueio feroz e repetidos ataques aéreos, incursões, operações militares e punições coletivas de Israel há quase duas décadas. A maioria dos seus dois milhões de habitantes continua a viver em campos de refugiados superlotados e em condições desumanas. O ex-chefe militar das Forças de Defesa de Israel (IDF), Benny Gantz, referindo-se à invasão israelense de Gaza em 2014, se vangloriou de "bombardear Gaza até devolvê-la à Idade da Pedra". As IDF descrevem sua tática em Gaza como "cortar a grama".

Por décadas, Israel tem exigido a rendição incondicional de suas vítimas e se recusou a aceitar qualquer desafio em qualquer forma. A mensagem foi inequívoca: táticas democráticas são inúteis. Mesmo quando os palestinos optavam pela resistência não violenta – greves, manifestações, etc. – Israel respondia com força brutal.

A primeira Intifada, um levante popular palestino que começou no campo de refugiados de Jabalya, em Gaza, em 1987, foi brutalmente reprimida pelas forças israelenses, levando ao surgimento do Hamas e de outros grupos militantes. Em setembro de 2000, Gaza se tornou o campo de batalha simbólico da segunda Intifada, quando Muhammad al-Dura, de doze anos, foi morto a tiros nos braços de seu pai em uma encruzilhada perto do campo de refugiados de Bureij, em Gaza, tornando-se a imagem icônica do levante. Mais de cinco mil palestinos foram mortos por Israel durante a primeira e a segunda Intifadas.

Em 2018, quando os refugiados de Gaza organizaram a Grande Marcha do Retorno para marcar o aniversário da Nakba (ou "catástrofe", o deslocamento em massa dos palestinos na fundação de Israel), as forças israelenses responderam matando mais de 150 manifestantes e ferindo outros dez mil, incluindo crianças e jornalistas, em um período de seis semanas. Um relatório das Nações Unidas posteriormente concluiu que soldados e líderes israelenses cometeram crimes contra a humanidade e usaram deliberadamente munição de chumbo contra civis.

A brutalidade desenfreada de Israel em Gaza produziu uma geração de palestinos que perderam a fé na resistência não violenta, tornando a explosão recente tão trágica quanto inevitável. Os jovens palestinos que invadiram Israel a partir de Gaza neste fim de semana agiram impulsionados pela desesperança, não vendo nenhuma saída do jugo da opressão e da inumanidade do bloqueio.

A Cisjordânia também está à beira de uma explosão. Assim como Gaza, a Cisjordânia está sitiada, com mais de meio milhão de pessoas vivendo em mais de 140 assentamentos exclusivamente judeus construídos por Israel em terras e casas palestinas. Cerca de 3,5 milhões de palestinos residem em guetos segregados atrás do "muro do apartheid" de Israel e da recém-construída "estrada do apartheid", bem como em cidades e vilas cercadas por blocos de assentamentos judeus e uma rede de estradas segregadas, barreiras de segurança e instalações militares. Para os palestinos que vivem lá, o apartheid não significa apenas segregação, mas sim a inumanidade da vida sob ocupação: espancamentos, tiros, assassinatos, linchamentos, toques de recolher, postos de controle militares, demolições de casas, despejos, deportações, desaparecimentos, derrubada de árvores, detenções em massa, prisões prolongadas e detenções sem julgamento.

A atual explosão de violência é a horrível realidade do apartheid israelense, a culminação de décadas de ocupação de um povo apátrida privado de direitos humanos e liberdades básicas. A menos que as causas profundas sejam desmontadas – o levantamento do bloqueio, o fim do sistema de apartheid e da ocupação –, a violência continuará a atormentar tragicamente palestinos e israelenses por anos.

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